sábado, 10 de setembro de 2011

Literatura + pintura = cultura

A aparência não é tudo, aprendemos ao longo da vida. Mas, para quem está mais para cá do que para lá, o "não" não cabe na frase. Cores, formas, brilhos - para as crianças, quanto mais, melhor. Eu tiro por mim, que me apaixonei pela bota rosa da Xuxa; eu a achava tão delirantemente linda, que, por um loongo tempo, ela era minha peça obrigatória, e tudo o mais era acessório (imagine aí as combinações tristes de brega que eu submetia à visão alheia...). Aos olhos de hoje, elas perderam aquele encanto, mas sinto ternura pelas lembranças que elas trazem.



Esse é apenas um dos muitos exemplos de objetos que eu levava comigo (ou em mim) como se fossem verdadeiros amuletos.
Outro utensílio que ilustra bem a impregnação infantil com a aparência é o livro. Claro que a capa de um livro serve como arma para fisgar leitores de todas as faixas etárias, mas, para as crianças, a questão é mais profunda, porque para elas pouco importa o conteúdo da história; o que elas querem é VER a história (leia-se: figuras).
Aqui vai de novo a linguagem poética atuando: meus pais davam prá gente (somos três) livros e mais livros cheios de gravuras das mais diversas qualidades. Lembro que houve um tempo áureo em que o papai, de vez em quando, chegava em casa com um livro de mais de 70 cm de altura ("!!!!"), com páginas cheirosas, grossas, brilhosas e sonoras contendo dois ou três contos longos e uma fábula de uma página.  não eram sempre histórias açucaradas com dicotomia bem-mal delimitadas e com finais previsivelmente felizes, não. Com eles vi, por exemplo, que a princesa Sireneta (até então só conhecia o desenho "A pequena sereia"), ao tornar-se humana, sentia dores lancinantes a cada passo que dava; que suas irmãs, sabendo que, ao fim do dia do casamento do príncipe com a princesa de um reino vizinho (pois é, ele não foi enfeitiçado pela bruxa Úrsula), a princesa do mar se transformaria em espuma entre as ondas (o destino que cabe a todos os descendentes de Tritão, segundo sua avó), trocaram suas longas cabeleiras por uma adaga dada pela bruxa que desfaria o efeito caso a então humana matasse seu amor...(vou deixar os outros babados para os curiosos lerem por aí). Vi também um conto de um samurai, que eu não entendi direito porque, infelizmente, o acesso à cultura oriental no meu tempo de criança era zero. O certo é que me lembro de grande parte das gravuras desses livros enormes, que meus olhos devoravam em minutos.
Tem um livro, acho que da minha 1a série, que achei legal demais, "O jacarezinho egoísta". Me marcaram as imagens do sol soprando forte sobre a lagoa (onde o jacaré não deixava os patinhos tomarem banho) até ela secar e depois a do jacaré de joelhos, prometendo compartilhar a lagoa com todos se ali voltasse a ter água como antes.


Claro que não posso deixar de mencionar o livro com o qual aprendi a ler, a cartilha "A casinha feliz". Ao longo da alfabetização, a tia Dênia nos fazia adentrar a casa onde moravam Vovó, Vavá, Vevé e Vivi, além de outros personagens.



Interessante como nossa mente funciona, pois tudo isso que falei me veio à tona ao ver a capa de um livro de contos brasileros traduzido para o italiano e ilustrado por pintores de vários países diferentes.



É pena que histórias de povos indígenas tradicionais brasileiros (Tukuna, Guaranì, Taulipang, Mundurucù, Tembé, Kayapò, Bororo, Kaingàng) sejam valorizadas por estrangeiros, enquanto nossas crianças absorvem histórias europeias.

Mais detalhes sobre a obra:
http://www.sarmedemostra.it/ita/28ed/a-ritmo-dincanto-il-libro.html

domingo, 4 de setembro de 2011

Cantar nunca foi só de alegria

Papai sempre gostou muito de cantar, seja no chuveiro, seja na varanda lá de casa, seja no carro, junto com o rádio. Uma das mais deprimentes que eu achava era aquela que conta como um compônio arrancou o coração de sua mãezinha, ainda de joelhos a rezar, como prova de amor por uma moça. Mas acho que nenhuma ganha da do assum preto, cujos olhos foram perfurados para que seu canto ficasse mais bonito. Lembro que eu e minha irmã nos entreolhávamos, horrorizadas, e soltávamos suspiros de dó enquanto o papai soltava a voz de olhos fechados.


 Hoje pela manhã, ouvi um canto tão lindo de canário, daqueles cheios de notas complexas com estalos, e me veio à mente como sentimentos negativos podem inspirar a produção do belo. Byron que o diga.
Me bateu agora (na verdade, sempre!) a curiosidade de saber a história de quadros, esculturas e composições que transcendem o conceito da arte pela arte, fazendo transbordar sensações, lugares e pessoas. Não, porque existem obras com que você se identifica de cara sem saber ao certo o motivo, que nem uma música instrumental que ouvi outro dia e me deu saudade não se de quê; já outras você precisa ir apurando os sentidos para fazer o vínculo, como um livro que começa desinteressante, e depois você fecha, lamentando que acabou. A coisa complica, porém, quando você depara com a barreira do hermetismo (isso soou pleonasmo, mas quis enfatizar mesmo). Por exemplo, a grande jornalista e escritora Clarice Lispector; quando leio um texto dela, por menor que seja, minha cabeça fica quente de tanta sinapse, e muitas vezes desisto de tentar desvendar o segredo do cofre-conto e vou relaxar ao som do papai.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Firebird



Confesso que, em criança, nunca fui afeita a lendas, não. Para mim, elas se resumiam ao meu pequeno mundo do saci pererê, da mula-sem-cabeça, da caipora, do lobisomem...e isso só vinha à tona mesmo no dia do folclore, quando as tias nos davam textos prá ler (lembro que sempre me tocava a história do negrinho do pastoreio, apegado à Nossa Senhora e maltratado pelo seu senhor) e desenhos prá pintar.
Mas depois, quando os livros de História engrossaram, fomos apresentados a novas civilizações, novas culturas. É fato que meu primeiro contato com a mitologia foi beeem antes, com a Biblioteca do Escuteiro-Mirim, da Disney:





Acho interessantíssimo como muitas vezes assimilamos a ideia de um significante com a pueril avidez passiva para, só tempos depois, seu significado ser (re)construído por nós. Exemplo: eu a-d-o-r-a-v-a assistir ao desenho dos X-Men, e encarava com muita naturalidade o fato de a mutante Jean Grey ter sido dominada pela Fênix, uma força metaforizada por um pássaro com plumas de fogo. Ponto final.
Ledo engano, mera limitação intelectual! A Fênix é uma lenda multicivilizatória: egípcios, gregos, pérsios e chineses já a reverenciavam por sua cobiçada imortalidade.
Há duas lendas legais sobre a Fênix, é só acessar os seguintes sites:
http://www.firebirdborzoi.com/firebird
(a bela jovem transformada em pássaro de fogo por um feiticeiro)

http://www.surlalunefairytales.com/firebird/index.html
(o fantástico pássaro cuja captura é, ao mesmo tempo, uma bênção e uma maldição para o mais novo de três filhos de um czar)

Essa suposta ave luminosa e forte que renasce das próprias cinzas sempre trouxe em seu bojo um grandioso significado: o da renovação, o da esperança. E foi essa ideia linda e intensa que me veio à mente ao assistir ao segmento "Firebird" do filme Fantasia 2000:




Sempre que vejo esse vídeo, me emociona a capacidade desses caras de transmitir, com tanta sensibilidade e inteligência, um conjunto de símbolos tão presentes - e não raro pungentes - nas mentes humanas, como o sopro da vida (remetendo à relação Criador-criatura), a circularidade destruição-renovação da natureza (a questão da vida após a morte) e a figura feminina do cuidado (a relação ambiente-homem no seu desenvolvimento).


Ah, achei um comentário sobre o vídeo: "the chapter in the animated film Fantasia 2000 based on Stravinsky's piece uses an abridged version of the 1919 suite to tell the story of a spring sprite and her companion elk. After a long winter the sprite attempts to restore life to a forest but accidentally wakes the "Firebird" spirit of a nearby volcano. Angered, the Firebird proceeds to destroy the forest and seemingly the sprite. She is restored to life after the destruction and the forest life is reborn with her."

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Feira do Artesanato

 Mestre Expedito Seleiro (CE)


"Na sociedade atual, caracterizada pelo avanço industrial e tecnológico, o crescente gosto pelos trabalhos artesanais expressa a necessidade humana de manter laços com os modos de vida que marcaram sua existência desde os remotos tempos pré-históricos. No sentido estrito, artesanato é qualquer tipo de trabalho realizado manualmente, em oposição aos executados por meios mecânicos, ou em série. Nos dias de hoje, os exemplos de artesanato são: cerâmica, tapeçaria, entalhe, encadernação, bordado e ourivesaria.
Desde seu aparecimento no final do século XIX, o termo artesanato teve significação ambígua, que englobava todo o conjunto de atividades não agrícolas, sem distinguir o artesão do artista. Antes da revolução industrial, o artesanato era o único tipo de produção existente. Na Europa, os artesãos desempenharam importante papel no desenvolvimento das sociedades urbanas, nas quais exerciam poderosa influência. (...)"

Para quem quiser ler o texto na íntegra, peguei daqui, ó:
http://www.emdiv.com.br/pt/arte/enciclopediadaarte/501-o-artesanato-e-sua-historia-no-brasil-e-no-mundo.html

Sim, um dia desses, fui à Feira do Artesanato Mundial no Centro de Convenções. Tirei menos fotos do que gostaria (por exemplo, em um dos quiosques, havia quadros que, de longe, pareciam pinturas, mas quem se aproximasse veria telas preenchidas por pedrinhas dos mais variados matizes!).


Não lembro a nacionalidade desse quiosque...
 Belíssimas luminárias

 Peças de xadrez e tabuleiro de ônix paquistanês (o branco é o mais raro de todos)

O cara achou ruim eu tirar a foto das luminárias, mas me fiz de besta

terça-feira, 21 de junho de 2011

"Epílogo"



Um dia desses ainda coloco uma câmera na minha frente enquanto leio um livro; é incrível como vivemos tantos sentimentos alheios só correndo os olhos pelas palavras! A palavra epílogo vem, então, aliviar a tensão, estabilizar sensações e, às vezes, confortar os leitores compulsórios (como nós que tivemos de ler livros para o vestibular...). Sim, afinal, o que de tão importante pode acontecer daí prá frente?
Mas na montanha-russa da vida real é outra história; clímax é o que não falta, e muitos ainda estão por vir. E, prá quem percebe que a arte imita a vida, não precisa dizer o porquê das aspas.

domingo, 19 de junho de 2011

Dias 5 (17/6/2011)











Todo mundo tem o "dedo verde" para alguma atividade. Por exemplo, eu sei que não tenho dedo verde para pintar! Achei interessante o consolo da profa. Fátima: a gente não sabe olhar as coisas.
A luz é quem nos permite distinguir uma incrível variedade de cores, comparar profundidades e supor a textura dos objetos que nos impressionam a visão. Assim, a verossimilhança da reprodução de uma imagem para a tela dependerá do domínio desses efeitos da luz. Quero compartilhar aqui obras de alguns Tistus da pintura:

 Antonio Petikov
 Caravaggio
 Renoir
 Washington Maguetas
Ira Malik


Enquanto isso, na sala H, nós, meros mortais, tentamos fazer alguma coisa com o material à nossa frente.





Achei legal conhecer os lápis aquareláveis. Funciona assim:
1. Pinta-se a tela como se fosse um lápis tradicional...




2. Molha-se de leve um pincel na água...




3. Atrita-se suavemente o pincel sobre a superfície pintada.




A profa. Fátima, a pedidos, fez uma pintura para nós. O resultado foi bárbaro!






O desenho abaixo, também da profa Fátima, foi feito usando lápis aquarelável.
É muito mais interessante quando a gente vê o processo!




 

Houve ainda apresentações sobre: origami, pintura e musicoterapia.
Ao final, pregamos nossas telas na parede de fundo da sala. Vi muitas revelações!










A arte até então só nos tinha impressionado a visão, quando degustamos os belíssimos e deliciosos cup cakes de uma artista.







Todos apreciamos muito suas obras, Yuka! 

Hehehe




E finalizei o módulo de Arteterapia mais tranquila (xô, estresse!) e criativa, com a expectativa de me utilizar, com mais frequência que antes, dessa simples e bela ferramenta para me divertir nas horas de lazer e me curar nas horas de tristeza. Também me sinto como uma agente multiplicadora dessa gostosa maneira de fazer arte.
Agradeço à profa. Fátima Azevêdo por compartilhar, com paciência e bom humor, seus preciosos conhecimentos, bem como aos colegas de classe, novas e melhoradas pontes entre mundos.