domingo, 4 de setembro de 2011

Cantar nunca foi só de alegria

Papai sempre gostou muito de cantar, seja no chuveiro, seja na varanda lá de casa, seja no carro, junto com o rádio. Uma das mais deprimentes que eu achava era aquela que conta como um compônio arrancou o coração de sua mãezinha, ainda de joelhos a rezar, como prova de amor por uma moça. Mas acho que nenhuma ganha da do assum preto, cujos olhos foram perfurados para que seu canto ficasse mais bonito. Lembro que eu e minha irmã nos entreolhávamos, horrorizadas, e soltávamos suspiros de dó enquanto o papai soltava a voz de olhos fechados.


 Hoje pela manhã, ouvi um canto tão lindo de canário, daqueles cheios de notas complexas com estalos, e me veio à mente como sentimentos negativos podem inspirar a produção do belo. Byron que o diga.
Me bateu agora (na verdade, sempre!) a curiosidade de saber a história de quadros, esculturas e composições que transcendem o conceito da arte pela arte, fazendo transbordar sensações, lugares e pessoas. Não, porque existem obras com que você se identifica de cara sem saber ao certo o motivo, que nem uma música instrumental que ouvi outro dia e me deu saudade não se de quê; já outras você precisa ir apurando os sentidos para fazer o vínculo, como um livro que começa desinteressante, e depois você fecha, lamentando que acabou. A coisa complica, porém, quando você depara com a barreira do hermetismo (isso soou pleonasmo, mas quis enfatizar mesmo). Por exemplo, a grande jornalista e escritora Clarice Lispector; quando leio um texto dela, por menor que seja, minha cabeça fica quente de tanta sinapse, e muitas vezes desisto de tentar desvendar o segredo do cofre-conto e vou relaxar ao som do papai.

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