sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Moda

Pode falar, Houaiss:
"Moda: s.f. conjunto de opiniões, gostos e apreciações críticas, assim como modos de agir, viver e sentir coletivos, aceitos por determinado grupo humano num dado momento histórico; conjunto das principais tendências ditadas pelos profissionais que trabalham no ramo da moda (...)"
Hoje estava vendo tevê e deparei com trechos de dois filmes peculiares: Lincoln - O caçador de vampiros e João e Maria - Caçadores de bruxas. Espero que essa onda de filmes e livros explorando temas como zumbis, vampiros e bruxas passe logo. Não que não tenha apreciado ler Harry Potter e a saga Crepúsculo, mas seria bom se eles soubessem a hora de parar e oferecer assuntos novos ao invés de venderem mais do mesmo. Mas, se as vendas continuam, é porque há quem não enjoou ainda.
Enfim, o certo é que as preferências das massas em geral não me agradam. Primeiro, confesso que, por birra, não faço algo só porque outros estão a fazer ou a pedir que eu o faça. Quando minhas irmãs, com o resto do mundo, estavam vivenciando o auge da febre J. K. Rowling, eu não tinha a mínima curiosidade de passar meus olhos para além das capas que elas me mostravam contentes após comprar ou ganhar (uma delas chegou, inclusive, a adquirir o último volume na versão em inglês, tamanha era sua ansiedade). Só algum tempo depois, de férias, enquanto estava arrumando nosso quarto, vi aqueles volumes empoeirados; li muito rápido porque, de fato, é uma ótima história contada de forma incrivelmente descritiva e fluida. Segundo, gosto de desfrutar de uma ilusória exclusividade quanto ao que tenho e faço. Gosto de descobrir lugares interessantes sem que ninguém me tenha falado deles; gosto de assistir a documentários sobre assuntos incomuns, desconhecidos por mim; gosto de usar roupas atemporais, de preferência, anti-moda.
Quanto às tendências de moda, destaco, no segundo significado do verbete, a palavra "ditadas". Tenho forte aversão pelo modo como me sinto, feito gado humano, compelida a usar o que "está na moda". Quando entro numa loja popular, quase tudo o que me rodeia é uma versão barata do que astros e estrelas nacionais e internacionais estão usando sob orientação dos grandes estilistas. Se as vendedoras que me atendem soubessem o quanto detesto esse modismo alienante, jamais diriam: "esta é a peça que mais sai" ou "tá todo mundo usando!". Gosto do belo e não preciso de ninguém me dizendo o que é e o que não é belo. Claro que preciso que alguém produza as roupas, pois só sei usar fio e agulha prá suturar, mas isso não significa que não posso ter meu estilo.
Cansada de ver tantas aberrações nas passarelas e nas ruas, decidi um dia selecionar peças que me transmitissem o belo, o equilíbrio, a discrição. Seguem alguns cliques:




sábado, 12 de janeiro de 2013

Comida

Em feiras, supermercados e praças de alimentação, vemos alimentos nos mais diversos estágios de beneficiamento. E comê-los soa bem natural, apesar de, na grande maioria das vezes, não conhecermos  suas origens (por que mãos passou? Como se originou, foi cultivado ou criado e manipulado? Onde nasceu, desenvolveu-se e morreu?). Interessante como a relação homem-alimento passou de algo tão íntimo para banal.
Para grande parte das massas, o alimento tornou-se nada mais do que um produto, com centros produtores, transporte e centros consumidores. Para a crescente classe ecologicamente correta, há questões  muito mais sérias por trás: desperdício, fome, OGMs, agrotóxicos e reforma agrária. Para as ciências da saúde, estão crescendo conceitos como dieta parenteral, nutracêuticos e dieta ortomolecular.
Comida significa tanto para todo ser vivo. O input de nutrientes variados garante a sobrevivência, o bom desempenho da funções orgânicas e é pré-requisito mínimo para a transmissão de um pool genético. Sabe-se, no entanto, que há alimentos nocivos e benignos; o paladar foi, assim, imprescindível para a evolução das espécies. Para algumas, algo mais do que genes foi passado adiante; a cultura foi um mecanismo com o qual aos jovens foram "herdadas" experiências dos mais velhos, o que permitiu, com o passar de gerações, a formação de um pool de conhecimentos. Isso permitiu uma melhor adaptação e depois o controle do meio. O domínio de ferramentas e técnicas para cultivo e pastoreio, ou seja, o manejo de alimentos de fato ou potenciais, permitiu ao homem fixar-se e agrupar-se de modo mais semelhante ao familiar. Assim, logo alimentos estariam inseridos em rituais intrínsecos a grupos das mais diversas localidades, contribuindo para o estabelecimento da identidade dos povos.
Às vezes considero essas questões ao deparar com os alimentos do dia-a-dia. Na maioria do tempo, porém, a comida para mim está ligada a lembranças. Pudera, quantas refeições já fiz nos últimos quase 26 anos?? Acho que a primeira de que me lembro é de um mingal fluido, morno e doce que mamãe me dava de mamadeira, eu ainda entre dormindo e quase acordada. Era bom começar o dia com aquela marcante mistura de gosto e temperatura em minha boca. Mais tarde, passei a apreciar frutas com mel ou com açúcar: banana, laranja, abacate. Ao mesmo tempo, massas cruas de bolo, figos em calda, azeitonas e chambinho sempre foram bem-vindos.
Ainda vivos em minha memória estão os dias em que eu e minhas irmãs acompanhávamos a mamãe a uma vizinha que criava e abatia galinhas; não recordo se sentia alguma coisa ao ver as coitadas tendo o pescoço quebrado e as penas arrancadas do couro, mas achava legal sentir, já na cozinha, a textura dos órgãos. Inclusive, num desses dias, vi um osso com uma parte esverdeada no meio; "é mastruço, minha filha; quando a gente criava galinha e ela quebrava uma pata, seu avô enfaixava um pano melado com o extrato dessa folha e, dentro de poucas semanas, a galinha tava boazinha". Tão bom; a cozinha como uma sala-de-estar, onde eram ouvidas dicas, notícias do dia, confidências, tudo em meio a cheiros e sabores.
Em cima do freezer, ficava a iogurteira, com uma redoma de vidro transparente que abrigava 6 potinhos de vidro com tampa amarelada. Quando a mamãe comprava iogurte natural prá gente, sempre dizia: "Deixem a semente pro iogurte!". A semente era um restinho de iogurte, que servia de matéria-prima para o iogurte caseiro. Confesso que nunca acompanhei o modus operandi, de modo que não tenho como descrever, mas  gostava de ver os potinhos cheios a girar, quentinhos, que logo, logo iria abrir, colocar uma ou duas colheres de açúcar e mastigar sem querer engolir, de tão bom!



Depois acho que ela quebrou; desde então, vivia experimentando novos iogurtes naturais nas prateleiras, procurando o gosto do que a mamãe fazia tão carinhosamente, sem sucesso. Até que, na semana passada, olhei para um iogurte diferente, "Grego". Provei e foi efeito madeleine total; para quem não conhece, é o mesmo efeito ratatouille:



Ah, enfim, há muitas coisas gostosas, lindas e importantes por trás das comidas.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Contradições

Nos tempos de escola, aprendi um jogo de palavras com uma amiga: "Por que 'tudo junto' se escreve separado, e 'separado' se escreve tudo junto?" Doce tempo esse, em que o pensamento era ainda uma ferramenta secundária, e o boletim era uma das minhas maiores preocupações.
Como um brotinho de feijão, dúvidas e mais dúvidas sobre o passado, o presente e o futuro foram crescendo em mim, e os pensamentos, então, se acumularam como uma bola de neve, já que somos um contínuo resolver de questões, escolher de caminhos, um transformar de nós mesmos, como expressou muito bem alguém que afirmou que um homem não se molha duas vezes no mesmo rio.



Merlin, no desenho "A espada era a Lei", fala que prá cada bem existe um mal, pro que é doce tem o sal; sim e não; céu e mar; isso faz o mundo andar. Claro que eu não pensava sobre o significado dessa frase musicada, apenas cantava. Hoje essa sabedoria simples, que me lembra a sabedoria deísta de comunidades nativas, chama minha atenção, pois estou certa de que nosso contato com os opostos, no nosso dia-a-dia, nos estimula a comparar, aprovar ou reprovar, aprender, escolher, viver.
No início na vida, o ser humano é, basicamente, sensorial; tudo o que está ao redor de um bebê é provável, no sentido de experienciável pelos seus sentidos, ávidos por informações, que permitirão associações, que estimularão ações, que guiarão o comportamento, que moldarão a personalidade. Por que será que esse exercício tão simples, mas tão útil, é abandonado por tantos? Provar a mudança de matizes durante o amanhecer. Provar uma melodia que destrua suas represas e faça chorar. Provar a fragrância suave de uma fruta. Provar a maciez do cetim. Provar o travor do tamarindo.
No simples está a verdade; no complexo, a polêmica. Talvez muitos invistam mais seus pensamentos no complexo, em busca da verdade ou de vantagens, cansados do lugar-comum de que, talvez, sequer desfrutaram.
Tão importante quanto experimentar é experimentar de novo. A expressão de novo vem do latim e significa "sob nova forma", "de nova maneira". Volto à citação sobre o homem e o rio, lembrando que, quando criança, li "O pequeno príncipe"; achei fabuloso um menino se criar num planeta minúsculo sem os pais e voar por aí puxado por asteroides; não sabia como ele suportava, e ainda regava, aquela flor chata. E só. Hoje tenho certeza de que obras como "O pequeno príncipe", "Alice no país das maravilhas" e "O menino do dedo verde", por exemplo, definitivamente, não deveriam fazer parte da Literatura Infantil, pois é necessário, para aproveitá-las, trazer uma bagagem filosófica e sentimental que é quase impossível que uma criança tenha.
A contradição é o ponto de partida e o processo de qualquer vivência: vida e morte, fome e saciedade, amor e ódio, altruísmo e egoísmo, riqueza e pobreza... Os opostos são infinitos porque, até agora, a humanidade é infinita, já que não me atrevo a estimar quantas vidas, quantas experiências, percepções e escolhas foram feitas desde que surgiu o pensamento.
Até um dia desses, encarei a contradição como motivo de angústia para o ser humano, apesar da incontestável pedagogia que ela encerra. De repente, estou vivenciando uma que me conforta imensamente: sou toda alegria e tristeza na saudade.