Para grande parte das massas, o alimento tornou-se nada mais do que um produto, com centros produtores, transporte e centros consumidores. Para a crescente classe ecologicamente correta, há questões muito mais sérias por trás: desperdício, fome, OGMs, agrotóxicos e reforma agrária. Para as ciências da saúde, estão crescendo conceitos como dieta parenteral, nutracêuticos e dieta ortomolecular.
Comida significa tanto para todo ser vivo. O input de nutrientes variados garante a sobrevivência, o bom desempenho da funções orgânicas e é pré-requisito mínimo para a transmissão de um pool genético. Sabe-se, no entanto, que há alimentos nocivos e benignos; o paladar foi, assim, imprescindível para a evolução das espécies. Para algumas, algo mais do que genes foi passado adiante; a cultura foi um mecanismo com o qual aos jovens foram "herdadas" experiências dos mais velhos, o que permitiu, com o passar de gerações, a formação de um pool de conhecimentos. Isso permitiu uma melhor adaptação e depois o controle do meio. O domínio de ferramentas e técnicas para cultivo e pastoreio, ou seja, o manejo de alimentos de fato ou potenciais, permitiu ao homem fixar-se e agrupar-se de modo mais semelhante ao familiar. Assim, logo alimentos estariam inseridos em rituais intrínsecos a grupos das mais diversas localidades, contribuindo para o estabelecimento da identidade dos povos.
Às vezes considero essas questões ao deparar com os alimentos do dia-a-dia. Na maioria do tempo, porém, a comida para mim está ligada a lembranças. Pudera, quantas refeições já fiz nos últimos quase 26 anos?? Acho que a primeira de que me lembro é de um mingal fluido, morno e doce que mamãe me dava de mamadeira, eu ainda entre dormindo e quase acordada. Era bom começar o dia com aquela marcante mistura de gosto e temperatura em minha boca. Mais tarde, passei a apreciar frutas com mel ou com açúcar: banana, laranja, abacate. Ao mesmo tempo, massas cruas de bolo, figos em calda, azeitonas e chambinho sempre foram bem-vindos.
Ainda vivos em minha memória estão os dias em que eu e minhas irmãs acompanhávamos a mamãe a uma vizinha que criava e abatia galinhas; não recordo se sentia alguma coisa ao ver as coitadas tendo o pescoço quebrado e as penas arrancadas do couro, mas achava legal sentir, já na cozinha, a textura dos órgãos. Inclusive, num desses dias, vi um osso com uma parte esverdeada no meio; "é mastruço, minha filha; quando a gente criava galinha e ela quebrava uma pata, seu avô enfaixava um pano melado com o extrato dessa folha e, dentro de poucas semanas, a galinha tava boazinha". Tão bom; a cozinha como uma sala-de-estar, onde eram ouvidas dicas, notícias do dia, confidências, tudo em meio a cheiros e sabores.
Em cima do freezer, ficava a iogurteira, com uma redoma de vidro transparente que abrigava 6 potinhos de vidro com tampa amarelada. Quando a mamãe comprava iogurte natural prá gente, sempre dizia: "Deixem a semente pro iogurte!". A semente era um restinho de iogurte, que servia de matéria-prima para o iogurte caseiro. Confesso que nunca acompanhei o modus operandi, de modo que não tenho como descrever, mas gostava de ver os potinhos cheios a girar, quentinhos, que logo, logo iria abrir, colocar uma ou duas colheres de açúcar e mastigar sem querer engolir, de tão bom!
Depois acho que ela quebrou; desde então, vivia experimentando novos iogurtes naturais nas prateleiras, procurando o gosto do que a mamãe fazia tão carinhosamente, sem sucesso. Até que, na semana passada, olhei para um iogurte diferente, "Grego". Provei e foi efeito madeleine total; para quem não conhece, é o mesmo efeito ratatouille:
Ah, enfim, há muitas coisas gostosas, lindas e importantes por trás das comidas.

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