sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Contradições

Nos tempos de escola, aprendi um jogo de palavras com uma amiga: "Por que 'tudo junto' se escreve separado, e 'separado' se escreve tudo junto?" Doce tempo esse, em que o pensamento era ainda uma ferramenta secundária, e o boletim era uma das minhas maiores preocupações.
Como um brotinho de feijão, dúvidas e mais dúvidas sobre o passado, o presente e o futuro foram crescendo em mim, e os pensamentos, então, se acumularam como uma bola de neve, já que somos um contínuo resolver de questões, escolher de caminhos, um transformar de nós mesmos, como expressou muito bem alguém que afirmou que um homem não se molha duas vezes no mesmo rio.



Merlin, no desenho "A espada era a Lei", fala que prá cada bem existe um mal, pro que é doce tem o sal; sim e não; céu e mar; isso faz o mundo andar. Claro que eu não pensava sobre o significado dessa frase musicada, apenas cantava. Hoje essa sabedoria simples, que me lembra a sabedoria deísta de comunidades nativas, chama minha atenção, pois estou certa de que nosso contato com os opostos, no nosso dia-a-dia, nos estimula a comparar, aprovar ou reprovar, aprender, escolher, viver.
No início na vida, o ser humano é, basicamente, sensorial; tudo o que está ao redor de um bebê é provável, no sentido de experienciável pelos seus sentidos, ávidos por informações, que permitirão associações, que estimularão ações, que guiarão o comportamento, que moldarão a personalidade. Por que será que esse exercício tão simples, mas tão útil, é abandonado por tantos? Provar a mudança de matizes durante o amanhecer. Provar uma melodia que destrua suas represas e faça chorar. Provar a fragrância suave de uma fruta. Provar a maciez do cetim. Provar o travor do tamarindo.
No simples está a verdade; no complexo, a polêmica. Talvez muitos invistam mais seus pensamentos no complexo, em busca da verdade ou de vantagens, cansados do lugar-comum de que, talvez, sequer desfrutaram.
Tão importante quanto experimentar é experimentar de novo. A expressão de novo vem do latim e significa "sob nova forma", "de nova maneira". Volto à citação sobre o homem e o rio, lembrando que, quando criança, li "O pequeno príncipe"; achei fabuloso um menino se criar num planeta minúsculo sem os pais e voar por aí puxado por asteroides; não sabia como ele suportava, e ainda regava, aquela flor chata. E só. Hoje tenho certeza de que obras como "O pequeno príncipe", "Alice no país das maravilhas" e "O menino do dedo verde", por exemplo, definitivamente, não deveriam fazer parte da Literatura Infantil, pois é necessário, para aproveitá-las, trazer uma bagagem filosófica e sentimental que é quase impossível que uma criança tenha.
A contradição é o ponto de partida e o processo de qualquer vivência: vida e morte, fome e saciedade, amor e ódio, altruísmo e egoísmo, riqueza e pobreza... Os opostos são infinitos porque, até agora, a humanidade é infinita, já que não me atrevo a estimar quantas vidas, quantas experiências, percepções e escolhas foram feitas desde que surgiu o pensamento.
Até um dia desses, encarei a contradição como motivo de angústia para o ser humano, apesar da incontestável pedagogia que ela encerra. De repente, estou vivenciando uma que me conforta imensamente: sou toda alegria e tristeza na saudade.

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