O prazer em se fazer palavras-cruzadas está muito além de se
testar o conhecimento de temas variados; com elas, constatamos como é bom saber
nomear objetos, pessoas, lugares, sentimentos... Afinal, é disto que uma boa
comunicação verbal se trata: a expressão compreensível de nós mesmos.
Poucas coisas são tão frustrantes quanto não se conseguir expressar em palavras ideias e emoções. Já comentei com meu namorado, em mais de uma ocasião, sobre minha quase revolta por ter de resumir esse sentimento tão profundo, complexo e lindo que compartilhamos numa palavra que tanta gente usa sem querer dizer nada. Fazer o quê? As palavras se desgastam com o tempo, e algumas chegam a ficar prostituídas. Pobre amor...
Enfim, ave, palavras, esses símbolos que abarcam os significados!
Sou daquelas pessoas capazes de diluir uma frase em páginas, fazendo conexões entre uma ideia e outra como os galos tecem o amanhecer com seus cantos. Porém, gosto de deparar com palavras, frases que encerram ideias com as quais posso matutar horas e horas. Por exemplo, fiquei muito bem impressionada quando, em meio às tantas surpresas agradáveis que o filme Avatar me proporcionou, ouvi a expressão "I see you".
Ver é uma capacidade evolutivamente adquirida, uma importante ferramenta de interação com o ambiente. Por meio da visão, podemos apreender cores, deduzir texturas e gostos, perceber intenções e graus de receptividade. Mas é muito mais do que isso. Como diz Exupéry, "o essencial é invisível aos olhos". No presente contexto, peço permissão para acrescentar um adjunto, "aos olhos..." estranhos. Sim, porque, graças a Deus, não se pode enxergar o cerne de alguém simplesmente lhe direcionando o olhar. É preciso compartilhar experiências, dialogar, perceber reações, captar ideias e ideais, tornar-se íntimo do outro para que, finalmente, se possa afirmar que o conhece e que, portanto, o vê.
Existe um cumprimento usado no sul da África, Sawabona, que quer dizer "eu te respeito, eu te valorizo, você é importante pra mim". Em resposta, as pessoas dizem: Shikoba, que significa "então eu existo pra você". Ah, como seria bom que mais pessoas de fato existissem...
Li certa vez sobre a teoria do "mais amor", do psiquiatra Flávio Gikovate. Segundo defende, o mundo atual precisa se adaptar a uma nova forma de amor, em que as partes não são metades de um todo que se completam, mas sim dois inteiros que se somam, uma parceria. E eu senti aquela satisfação por pensar da mesma maneira!...
Numa das cartas de amor que escrevi (Me defenda, Álvaro: "Só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas"!), lembro-me de ter mencionado sobre como discordava da ideia de que uma pessoa tem desejo de se unir a outra por querer preencher lacunas. Isso é algo que se faz só; todos somos um quebra-cabeça sem fim, e cada um é a única pessoa capaz de encaixar cada pecinha, com cada pequena escolha que faz no dia-a-dia. Chamei essa maneira tradicional de se encarar a relação amorosa de "chave-fechadura"; alguns podem pensar que é clichê, mas me refiro aqui a um modelo de reação enzimática em que um substrato se acopla a uma enzima, num encaixe perfeito. Aí, também para ilustrar a minha ideia, usei o outro modelo, o do ajuste induzido, que funciona da seguinte maneira: quando da proximidade do substrato, a enzima adapta seu sítio de ligação para que haja o encaixe. Para mim, este modelo faz muito mais sentido, pois evidencia uma necessidade básica em qualquer relacionamento: adaptação. Não digo adaptação no sentido de alterar sua personalidade e se anular para satisfazer o objeto de desejo, mas de manter sua individualidade, desfrutar das semelhanças, respeitar as diferenças, dialogar e ceder em benefício da sociedade. Ceder é bem difícil; pessoas orgulhosas como eu sabem que é. Por isso, é importante que valha a pena, que seja pela união com alguém que faça aflorar de você o que há de melhor.
Li uma vez que, quando uma ideia penetra alguém, ela desorganiza o que estava lá previamente para depois construir algo melhorado. Acho que o mesmo acontece quando uma pessoa importante entra em nossa vida. Junto com ela vêm novos (pré)conceitos, paradigmas, costumes e novas experiências. Isso pode te desorganizar mais do que os ciclos menstruais, mas compensa se essa pessoa te faz existir.

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